“09:48…

Chegando em casa depois de um plantão de 24h. Como estou?  Despedaçada!!! Vou escrever aqui porque é uma mistura de desabafo, de grito, de denúncia, de alerta…

Cheguei ao plantão ontem pela manhã já sabendo que entre os pacientes que teria que atender havia um colega do hospital mas de outro setor.

Fiz com ele alguns poucos plantões e me lembro de ter cruzado com ele semana passada pelos corredores do trabalho.

Nas primeiras 12h de trabalho não cuidei de paciente. Cuidei de conseguir material para abastecer o setor. Quanta guerra enfrentei!!!

Não havia capote e nem máscara para iniciar o plantão. Com uma máscara cirúrgica fui até a porta do quarto dele e olhei pelo vidro…

Ele me disse: “Vocês estão demorando tanto a entrar aqui!”
Respondi: “Estamos sem material amigo. Assim que chegar vamos entrar.”

Foi na briga com setor que distribui face shield. Combati o dia inteiro pra conseguir o capote adequado (e não há)… Vi um grande número de profissionais, de todas as áreas, se desentendendo.

As 17h e pouco sentei no corredor e chorei muuuuuito porque precisava conseguir capote adequado em outros setores e tudo estava muito difícil!

19h fui tomar banho e pedir à Deus para renovar minhas forças… A essa altura o colega internado já estava entubado. As brigas ainda não terminaram…

Alguns colegas foram remanejados, eles foram. Não se negaram à ir mas brigaram porque não havia o material apropriado.

Por volta de 6:10 da manhã, já relaxada pra finalizar o plantão, ouço uma uma bomba de infusão alarmando, nada urgente, apenas um sinal específico indicando que ela precisava ser iniciada.

De boa vontande me paramentei e fui em busca de silenciar aquele equipamento barulhento. Encontrei e resolvi o problema mas na volta, olhando pela ultima vez o monitor dos pacientes me deparo com o monitor do colega dizendo aquilo que eu não queria ler. PAROU!!!

Parou também meu coração! Me investi de uma “capa” dura e fui com a enfermeira “preparar” aquele corpo. Corpo de um colega de trabalho.

Sinto-me anestesiada neste momento.
Agradeço as colegas que ouviram meu choro!

Vindo para casa, com as lágrimas rolando pelo rosto, vejo as pessoas na rua sem máscara, vejo as pessoas amontoadas na fila do banco. Ninguém está acreditando…

Vejo pessoas postando sobre o número da população com relação ao número de mortes no Brasil alegando que é uma proporção mínima para o número de habitantes do Brasil.

Nossas mortes só estão começando…
Os hospitais públicos já vinham sendo sucateados, o SUS já vinha sendo inviabilizado e agora precisamos enfrentar uma pandemia.

POR FAVOR PESSOAL
Se for possível, fique em casa.

Se precisar ir pra rua, use a máscara. Ela NÃO é para sua proteção. Ela serve para que a gente não contamine o outro porque podemos estar sem sintomas e ainda assim transmitir!

Para nossa proteção o importante é lavar as mãos sempre! Na impossibilidade de lavar as mãos, use então o álcool gel.

Ou a gente se cuida e cuida uns dos outros ou vamos todos padecer!!! Você pode até não estar acreditando mas vai acreditar quando um dos seus passar a fazer parte da estatística!

Vou parando por aqui… acho que falei bastante mas dentro de mim tem sentimentos e emoções que ainda não sei como vou lidar.

Por hoje, estou abatida!!!”

Por Luciene Silva

Imagem de Capa: Luis Galvez no Unsplash

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Márcia Lourenço
Sou Nutricionista e pós-graduada em fisiologia, bioquímica e nutrição do esporte. Apaixonada por nutrição e por comida que nutra o corpo e alma, sem terrorismos! O intuito aqui é orientá-los nas melhores escolhas, publicando dicas alimentares, receitas, curiosidades e estilo de vida. Sintam-se bem comendo bem! 🍏

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